Virando Gringa

A síndrome da porta de embarque

Eu posso falar naquele tom babaca, sim, eu amo viajar e já viajei muito. E agora vão surgir varias pessoas para dizer, olha só, mais um texto sobre viagem. Esse é o problema, esse texto não é sobre idas, mas sim sobre partidas.

Um dos maiores problemas de constantes viagens é ver a porta de embarque fechar. Não, não é porque isso diz que a viagem acabou. É porque isso significa que algo ficou para trás. Pessoas, Lugares, Lembranças, Brincadeiras e como diria um poeta, Letras, Lados e Lestes. Nesses infinitos deslocamentos que você conhece seus eternos amores, seus melhores amigos e todas as suas casas, e nada disto te pertence. Esta é a síndrome da porta de embarque, é ver tudo aquilo que era seu, tudo aquilo que já é parte sua, ficar para trás. Tudo aquilo some exatamente no momento que a porta fecha.

Para aqueles que possuem amores em transito, essa síndrome é crônica. É um ciclo vicioso que se resume em comprar passagem, contar os dias, viajar, ser feliz, chorar na despedida e ter o seu coração despedaçado pela porta de embarque. E esse sintomas se repetem indefinidamente. Ah essa tal de porta. Como disse uma filosofa desta área ,“Essas promessas de um futuro feliz é que sustenta a gente”.

Existe também aquele amor platônico, que alguns estudiosos disseram se tratar do fator amigo. Esse é talvez o maior dos níveis da porta de embarque. Porque em cada cidade, em cada aeroporto, em cada estação de trem, em cada ponto de despedida, contem a historia de um grande amor desses que foi consumado pela ultima vez, e após aquele abraço, a porta de embarque faz o desfavor de separar esses amantes por uma vida. Uma injustiça isso de gostar tanto de alguém que você nunca mais vai ver.

Essa danada dessa síndrome afeta de uma forma, que eu mesmo não posso descrever, pais. Aquela frase que dizia que filho vira passarinho e quer voar nunca foi tão verdadeira e dolorosa para eles. Essa síndrome também é amiga da porta de quarto, que é quando os pais percebem que a porta daquele ser que dias atrás era seu nunca mais se abriu, e abrir significa alimentar as lembranças. Essa dor se abate principalmente no natal e épocas que o filho normalmente ia reclamar que não come o aquelas comidas esquisitas ou que a roupa dele é feia.

E para citar um ultimo sintoma, porém vários mais podem ser encontrados, existe a porta que cria lembranças. A cada local novo o seu cérebro faz questão de tirar retratos, salvar cheiros e provar sabores. E ao experienciar tudo isso o sujeito é obrigado a passar pela maldita porta de embarque. Ao cruzar esse portal mágico, aquele que entrou agora não está mais no ambiente que ficou, aquilo tudo agora são suas melhores lembranças.

A verdade é que é boa essa danada da porta de embarque. Porque ela só reforça em sua mente que você não pertence a ninguém ou a nenhum lugar, e alimenta seu ser com varias memorias. Ela te mostra que você nunca vai estar preparado para um novo adeus, mas vai te lembrar que ela vai estar sempre lá, porque você vai sempre ter coisas novas e boas para dar adeus. Ela não separa casais, só reafirma amores. Ela não afasta amigos, só dá o nó nesse laço. E eu mal posso esperar pela próxima vez que vou ter que dar tchau.

Ah, essa tal de porta!

Texto do amigo Pietro Amaral.

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