Virando Gringa

Quer mora fora? Cuidado com o romantismo!

Primeiro, devo explicar que por “romantismo” eu quis dizer aquele amor romântico, como nos livros de José de Alencar. Aquele amor cego, inconsequente, que não prevê as partes ruins do relacionamento, e encara tudo com uma certa distorção. Resumindo, quando eu digo romantismo, eu quero dizer algo como: “O amor é cego!”.
Quando a gente se apaixona por alguém, ou por alguma coisa, a gente forma uma imagem daquilo. Uma imagem que a gente adora, que a gente constrói como se aquele objeto adorado fosse ideal, perfeito. Mas às vezes essa imagem se esquece da realidade, e se esquece de tudo que nós já passamos. É aquela velha história do “amor novo é sempre o melhor amor”. Nem sempre.

Eu gosto de dizer que morar na Europa é praticamente a mesma coisa de conhecer um novo amor. Tudo é lindo, tudo é gostoso, tudo é legal. Ainda mais pra quem saiu do bagunçado Brasil dos engarrafamentos, dos batedores de carteira, da corrupção no dia-a-dia, do rios poluídos, da soja tomando o cerrado, da transposição do são francisco…A lista é tão grande, que como diriam os norte-americanos: you name it!

Pois bem, daí você sai da muvuca, depois do sacrifício de chegar no aeroporto de guarulhos de ônibus com aquele monte de mala (porque não tem metrô direto!), entra num avião com mais um monte de gente, come aquela comida ruim, e desce na Europa. No meu caso em Amsterdam.

essa coisinha tão bonitinha do pai

De dentro do aeroporto você já pega um trem direto pra estação central da capital, é ajudada por funcionários sorridentes da estação, senta numa cadeira fofinha e limpa, num trem limpo, rápido e acessível. Chegando na sua cidade de destino você pega um ônibus com ar-condicionado no verão e aquecedor no inverno. O motorista fala inglês. A moça no ponto de ônibus fala inglês. A mocinha do balcão de comprar o ticket fala inglês.

Você chega no seu destino e pensa: meu Deus, Europa, onde estava você a minha vida toda?!

Pois é. Quem lê o blog, quem já fez intercâmbio, quem já passou pelo menos dois dias na Europa, vai saber do que eu tô falando. Não se culpe, não se sinta um anti-patriota, não se sinta nem um “paga-pau de gringo”. Sério. É normal quando a gente vê algo diferente, a gente se apaixona mesmo.

I mean..bikes, dogs, birds, snow…Como não cair de amores? como?

Mas depois do intercâmbio, a gente volta pro Brasil. Volta pro caos, mas por outro lado tem família e amigos. Muitos voltam pra faculdade, e acabam entediados com os métodos arcaicos de ensino, às vezes baseados na mera leitura de slides. Muitos amigos meus confessam que não aguentam mais a USP, depois de ter tido tantas aulas práticas nas melhores escolas de Engenharia da França, Inglaterra, Alemanha. Eu mesma me sentia presa na sala de aula, ao passo que, em Wageningen (Holanda), eu sentia prazer em estudar. Talvez justamente pelo encantamento, mas principalmente porque os assuntos eram bem mais ajustados à realidade. Bem mais atualizados, menos baseados em livros antigos cheios de traça. Mas isso não vem ao caso agora.

O que vem ao caso agora é que, quando a gente volta da magia, e cai de volta na nossa realidade, bate aquela, mas eu digo AQUELA vontade de voltar. Mas uma p*ta vontade de voltar pra Europa, pros amigos, pras viagens raras porém loucas, para a degustação de novos sabores, novas cervejas, novos ares. E aí, cria-se uma certa obsessão pelo velho-mundo. No tempo inicial da volta é normal a gente falar somente sobre isso. Até já mencionei isso aqui no blog antes.

Então, o tempo vai passando. Para alguns, a rotina brasileira volta a ser prazerosa, e eles se sentem felizes de voltar ao Brasil, encarando o intercâmbio como uma experiência boa, que já passou, e valeu a pena.
Mas para outros, a vida no Brasil não consegue mais dar aquela satisfação que a gente precisa. Nessa hora é bom ponderar: Será mesmo? Ou será que nós criamos isso?

Tenho uma amiga que costumava dizer que a gente pensa que “o melhor relacionamento” é justamente aquele que não aconteceu. Aquele moço ou moça que parece inalcançável parece sempre o melhor, o único, o seu par ideal. Muitas vezes pode ser verdade. Porém tem aqueles você bate um papo cabeça com ele e descobre que o príncipe era sapo. Não sei, tudo pode acontecer. Comigo já aconteceram ambos.

Com a Europa é a mesma coisa. Cada pessoa tem uma experiência. Não basta só viver num determinado país para ser feliz. Estatísticas não constróem vidas. Não é o local que te faz feliz, é você mesmo! São suas companhias, suas escolhas de vida, sua carreira, seus hobbies, seu coração, sua tranquilidade.
Por isso acho muito importante ressaltar que o Romantismo é perigoso quando se trata de morar fora. É preciso a gente ponderar o máximo possível, sempre enumerar os prós e contras das nossas escolhas.

É importante lembrar que morando por lá, nós não vamos viver de novo com aqueles amigos da faculdade que a gente ama demais. Talvez trabalhando regularmente nós viajaremos menos do que na época do intercâmbio. E possivelmente, as novidades vão diminuir a frequência. O local que era novo poderá se tornar habitual, até corriqueiro. Vai demorar muito, mas pode ser que aconteça sim.

Sinceramente, pra mim, isso ainda não tira a magia da Holanda. Mesmo que eu não sinta mais aquela paixão inicial, eu ainda tenho vontade de morar por lá. Não sei por quanto tempo, não sei se crio filhos por lá. Não gosto de decidir coisas que estão tão longe no futuro. Mas a sensação de segurança nas ruas, a limpeza, a organização, me atraem demais. O acesso a cultura, a mobilidade, os grandes projetos em relação ao meio ambiente, e principalmente, a igualdade social também.

E, é claro, a possibilidade de comprar uma câmera boa por um preço ótimo, e poder fazer essa foto desse passarinho cuti-cuti na neve!

Eu fiz a minha lista. Ainda estou na trajetória de decisão. Um grande amigo me disse ontem para tomar cuidado com as ilusões e botar os pés no chão. Estamos no processo!!
E vocês?
Será que o seu país sonhado bate com você? Será que a cultura bate com a sua? E o jeitão do povo, será que vai aceitar o seu? E você aceitar o deles? Dá pra viver sem pão-de-queijo?! Essas e outras perguntas são importantes na hora da decisão!
Essa é a mensagem que eu quero que levem pra casa quando estiverem pensando em morar no exterior. Realidade! Sem perder a habilidade de sonhar.
A felicidade está em você, não deposite todas as suas fichas num determinado país, ou possível estilo de vida que você ache que terá “quando morar fora“. Ilusão. Você é você, seja aqui ou seja na conchinchina.

Mesmo assim, vamos continuar compartilhando as experiências de viagem, porque viajar…seja pra ficar, seja por um tempo…Viajar É, sempre foi, e sempre será MA-RA!
Boas Viagens!

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Um comentário sobre “Quer mora fora? Cuidado com o romantismo!

  1. José Henrique

    Eu quero muito viajar para Itália, Paris, Noruega, Finilândia, Holanda, Rússia, e principalmente conhecer todos os estados do Brasil. Penso muito em morar fora (Rússia ou Holanda). Mas eu tenho muitas dúvidas, sobre o visto, pois nem todos os países aceitam pessoas de fora. E também na questão de moradia, de emprego, de segurança, entre outros.

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