Virando Gringa

Sobre ser mulher e viajar sozinha

Começo sem delongas: viajar sozinha é sensacional.
Num mundo onde as grandes massas confundem o “estar só” com solidão, onde as disputas pra ver quem é mais feliz e mais bem acompanhado, estar sozinho é um ato de rebeldia contra o sistema de felicidade fabricada.

Optar por ir sem esperar por ninguém é considerado arrogância, enquanto ostentar vinhos caros em hotéis 5 estrelas é o “cult” do momento.
Estar sozinha, pregada de cansaço da viagem de busão ou classe econômica do avião, cabelo desgrenhado, mochila nas costas e só a câmera do celular pra registrar, para alguns, isso parece loucura.
E como se já não bastasse, nós as mulheres, sem o tradicional toque delicado de olhos bem delineados, cabelos bem tingidos e penteados e unhas impecáveis… isso é demais.

Ser mulher e viajar sozinha pra mim é normal, mas não fazia idéia do quanto isso pode ofender a outrem…. não mesmo.

Ainda mais quando desprezamos os fricotes e tomamos o café da manhã à base de pão com manteiga, dormimos em hostel, e andamos de chinelo pelas ruas turísticas.
Ainda tem os fatores externos né, quando a gente resolve postar uma simples foto e os outros (sempre os outros) insinuam que somos ricas e/ou preguiçosas. Ricas porque viajamos (faz me rir!) e preguiçosas porque também viajamos (era pra você tá trabalhando, juntando seu dinheiro e se cuidando), ouvi muito isso.
Toda escolha agrega renúncias, e para nós mulheres viajantes não é diferente, também abrimos mão de muitos caprichos para seguir nossos sonhos.

Prioridades

Ver essa paisagem ou gastar com besteira?

As idas freqüentes e regulares ao salão de beleza, roupas e sapatos de grife,aquele barzinho “top” caro pra caramba, aquele carro zero km, isso tem um preço…. e custa caro abrir mão de “coisinhas” tão bacanas, mas que para mim não farão grande falta.
Eu assumo meus gostos e vontades e isso requer muita coragem, num mundo onde “mulher pra casar” não viaja sozinha. Num mundo onde temos de depender emocionalmente dos outros e aguardar por suas iniciativas pra seguir também.

Não há nada de deprimente em viajar sozinha, somos amigos fiéis, temos muito assunto pra conversar, temos histórias para contar.

Sozinho?

Os “sozinhos” de plantão são as melhores companhias, gozam do próprio silêncio e meditam, suportam a própria companhia e aprendem a se amar cada vez mais, pois tem a si mesmo como único sustento. E só quem ama a si mesmo sabe amar os outros e ser amável com os outros. Estar sozinho é um ato de coragem daqueles que não caem na armadilha de se comparar aos outros, e aceitam a si mesmo com mais amor.
Eu não dependo da tua escolha para assumir a minha escolha. Eu não dependo do teu amor para me amar. Eu aprecio a companhia daqueles que escolhem ficar ao meu lado, mas não deixo de seguir em frente se ficar pelo caminho. Assim é estar sozinho, cercado de gente boa e interessante, mas que você sabe que elas vão partir, e você as deixará ir.
Solidão, meu caro… solidão é outra coisa. Solidão é quando a gente se abandona, é quando esquecemos de quem somos, é quando buscamos ansiosamente por coisas que nos entopem até a garganta ao ponto de não mais respirar. Solidão é estar cercado de gente vazia e indiferente que nos usa pra sair na selfie e só.

Se eu tomei as rédeas e saí sozinha foi porque não dei ouvidos pra solidão.

Se eu resolvi viajar sozinha, foi porque eu segui meus desejos, porque assumo a mim mesma, porque amo a vida que levo, e quando não estou contente, mudo a rota e não fico no lugar.
A vida é muito preciosa para vivermos à base dos padrões, já não basta especulações e julgamentos, nossa rotina de trabalho, cobranças estapafúrdias, metas absurdas e chefias exigentes. Crescimento e aprendizado ninguém nos fornece, a gente é quem tem que sair e buscar.
Não mato mais 1 leão por dia, hoje eu adestro, ele fica mansinho e me protege das outras feras do dia a dia. Até porque pra ser mulher nessa selva de pedra e savana de sucata, a gente se desdobra em mil, redobra a força e bate de frente até quebrar a rocha e chegar à próxima praia. Mas a gente não para de jeito nenhum.

 

Publicado com autorização da autora e mochileira Juliana Souza (foto)

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