Virando Gringa

Como é a visita ao Campo de Concentração de Auschwitz, Polônia

A visita ao campo de concentração de Auschwitz foi uma das experiências mais intensas que vivi durante esse tempo que morei na Europa.

Nunca escrevi sobre isso porque é realmente dificil demais. Foi difícil explicar pros amigos na época, foi difícil ver tudo que eu vi lá. Foi difícil ter capacidade imaginativa nessa hora porque cada maquete, cada foto, cada pedacinho de roupa, cada fio de cabelo, cada plaquinha, cada documento, cada uma das provas que mantém a memória dessa época horrível entraram no meu coração e na minha mente pra nunca mais sair.

Toda vez que alguém tem a audácia de falar que nazismo é uma mentira ou que toda a história sobre isso é de alguma forma um “exagero”, fico com vontade de ser rica pra poder comprar um ingresso pra essas pessoas visitarem Auschwitz e aprenderem. Afinal sou pacifista.

Mas que dá vontade de mandar um tapão na cara junto com ingresso, ah dá sim.

Falando sério: Ver marcas tão vivas de uma crueldade inescrupulosa, comprovada por documentos e artefatos, além de ter sido amplamente documentada por fontes diversas de vários pontos de vista…e ainda negar? Tem que ser doido mesmo.

A visita a este campo de concentração foi algo que palavras não descrevem tão facilmente. Me fez refletir sobre até onde a humanidade pode chegar para alcançar ideais, por mais insanos que eles possam ser.

Com certeza, nessa visita você vai refletir pelo menos um pouquinho nos limites da manipulação de massas. Inclusive passará a prestar mais atenção se isso estiver acontecendo na sua frente, na atualidade, no seu país.

Veja as fotos do Memorial de Auschwitz

Faça essa visita comigo vendo algumas fotos que tirei durante as horas que eu e minha amiga Ana passamos em Auschwitz. Traduzi todos os textos livremente.

Nestas fotos você vai ver:

  • murais que contam a história dos anos de nazismo feitos pela administração do museu, traduzidos por mim.
  • fotos de objetos dos prisioneiros judeus como suas carteiras, suas roupas e outros,
  • flores e objetos deixados por parentes e visitantes em sinal de respeito e luto,
  • pedaços de cabelos do povo judeu, que os nazis pretendiam usar como material para fabricação de tecidos,
  • fotos de alguns prisioneiros, doadas pelas famílias ou encontradas após a guerra,
  • fotos do interior de uma câmara de gás, onde milhares de pessoas morreram separadas de suas famílias após dias ou semanas de sofrimento na fome e no frio,
  • retrato do famoso portão de entrada que diz “Arbeit macht frei” (esse doeu de olhar, já deu vontade de chorar logo na entrada), onde o ferreiro e prisioneiro judeu Jan Liwacz fez um ato de protesto ao instalar a letra B invertida no portão de sua prisão. Seu sequestro e cativeiro pelos nazistas durou de 1939 a 1945. Ele faleceu em 1980, na cidade de Bystrzyca Kłodzka. Na data que seria seu aniversário de 110 anos foi inaugurado um museu em sua homenagem na mesma cidade.

Conheça a história de Auschwitz pelo álbum:

Como chegar

A cidade mais próxima para visitar o campo de concentração é Warsaw (Varsóvia).

O Museu fica na cidade de Oświęcim, na rodovia 933. A entrada pelo estacionamento fica na Rua Stanisławy Leszczyńskiej no. 11. Bota no Google Maps.

O museu fica a 2 km da estação de trem de Oświęcim. Então vá pra rodoviária em Warsaw e compre uma passagem de ônibus pra Oświęcim. O ônibus que pegamos foi esse da foto abaixo.

Tem também empresas particulares que fazem essa rota diariamente em Varsóvia e em Cracóvia. Como a gente foi do jeito que os locais vão, não temos como te recomendar uma empresa.

Duração da visita

O Museu fica aberto em diferentes horários durante os meses do ano. No verão eles tem um horário mais estendido, no inverno mais curto.

  • 7:30 AM – 2:00 PM Dezembro
    7:30 AM – 3:00 PM Janeiro, Novembro
    7:30 AM – 4:00 PM Fevereiro
    7:30 AM – 5:00 PM Março, Outubro
    7:30 AM – 6:00 PM Abril, Maio, Setembro
    7:30 AM – 7:00 PM Junho, Julho, Agosto

*Esses são os horários de entrada. Um visitor pode ficar no Museu ainda por 90 minutos depois do último horário de entrada (por exemplo: 5:30 se for Fevereiro ou 8:30 se for Julho e por aí vai).

Como os alemães de hoje em dia lidam com o passado nazista

Para simplificar. Se for visitar a Alemanha é preciso saber:

1. Fazer uma saudação nazista é crime (6 meses de prisão),
2. Dizer “Heil Hitler” é crime (6 meses de prisão),
3. Vestir uma suástica nazista é crime (6 meses de prisão),
4. Negar o Holocausto é crime (6 meses de prisão),
5. O hino nacional não é “Deutschland uber alles”. Então não cante se você não quer se meter em encrenca (ir preso).

Histórico

Na década de 1950, a questão nazista era sobre “culpa coletiva”, já que pessoas que viveram a época nazista ainda estavam vivas. Infelizmente, elas foram submetidas a lavagem cerebral. Foram convencidas de que tudo estava bem nas outras partes da Alemanha, muitos não viam as crueldades que aconteciam. Acreditavam que o governo estava trabalhando pelo bem de todos e foram ensinadas a desprezar os judeus. Porém é importante lembrar: muitos alemães comuns nunca souberam que os judeus foram enviados para campos de concentração e foram mortos com gás. Até que tudo se tornou público. A vergonha se relaciona com isso. Leia mais sobre a história do povo alemão e o nazismo.

Nos anos 90, a questão nazista era mais uma parte da história que deveria ser rejeitada da mesma forma que o comunismo. Após a queda do Muro de Berlim, a Alemanha foi reunificada e o patriotismo alemão ressurgiu, ainda que de maneira não-militarista. A União Européia foi promovida como a chave para a paz na Alemanha e na Europa – que os alemães fazem parte de uma comunidade européia mais ampla, não apenas seu país.

Hoje, além de incluir culpa coletiva, o passado nazista é tratado como uma lição de história. Os alemães são ensinados desde a idade de dez anos sobre as atrocidades nazistas e cada estudante é obrigado a visitar um campo de concentração. Graças às exportações alemãs  como o ótimo futebol, a deliciosa cerveja, o apego à tecnologia, a cultura popular, a identidade alemã transformou-se de potência militarista (hard power) em “lederhosen e laptop” (soft power) – uma nação que domina pela busca por excelência.

Placa presente na entrada do Memorial de Auschwitz

Se você realmente quer saber como os jovens alemães lidam com o passado nazista da Alemanha, assista o filme Ele Está de Volta (2015), ou leia o livro também chamado Ele Está de Volta (2014) e Generation War (Nossas Mães, Nossos Pais), dois dos filmes de maior bilheteria da Alemanha nos seus anos de lançamento.

Os alemães ainda são raramente vistos demonstrando um orgulho específico em sua “germanidade” fora de eventos esportivos. Com o surgimento de um sentido renovado de nação, os alemães sentem-se mais à vontade para demonstrar orgulho por suas origens regionais e estaduais, podendo se declarar por exemplo “berlinenses”, “bávaros”, “saxões”…Da mesma forma que um brasileiro se diz “mineiro”, “paulista” ou “tocantinense”.

Site oficial

Visite o Museu e Memorial de Auschwitz. O ingresso custou apenas 11 euros, com guia de áudio.

Outros modos de aprender sobre o nazismo

  • Holocaust Memorial Center, em Budapeste, Hungria (sobre o Holocausto na Hungria)
  • House of Terror, Budapeste, Hungria (sobre os efeitos do Nazismo e Comunismo na Hungria)
  • Memorial Dachau, em Munique, Alemanha. Dachau foi o primeiro campo de concentração da história.
  • NS Dokumentationszentrum – O centro de documentação nazista, em Munique, Alemanha.
  • Muenchner Stadtmuseum, o museu da cidade de munique, conta a história da cidade, obviamente sem esconder o nazismo. Esse museu é uma fonte riquíssima de informações.
  • Muro de Berlim…em Berlim.
  • Memorial do Holocausto, em Berlim.
  • Anne Frank Zentrum, em Berlim.
  • Casa de Anne Frank, em Amsterdam, Holanda.
  • Deutsches Historisches Museum, dedicado a história alemã como um todo, mas que novamente não esconde os erros do passado.
  • e MUITOS OUTROS…

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