Minha experiência WWOOF: trabalhando numa fazenda na Bélgica

Nesse post vim falar sobre minha experiência como mulher viajando sozinha como voluntária na Bélgica.

Foi minha terceira experiência de intercâmbio voluntário. Como já tinha mais prática, resolvi experimentar novos caminhos e acabei encontrando esse cara de boina aí na foto, o Vincent. Ele foi meu anfitrião no intercâmbio e é um agricultor sustentável e palestrante sensacional. Vou contar um pouco sobre sua família neste post também.

A galera parece foto de banda indie 😉

Meu primeiro intercâmbio de trabalho foi na Holanda e contei sobre ele em outro post, olha aí embaixo:

Como consegui um intercâmbio de trabalho na Bélgica

Meu intercâmbio voluntário na Bélgica foi com uma família que fazia queijo de cabra, imagina o quanto eu comi! haha Consegui por meio de uma plataforma chama WWOOF (World Wide Opportunities in Organic Farms). Eles são uma instituição independente sem fins lucrativos, não são ligados ao governo de nenhum país.

Tudo é feito pela internet e tudo depende da boa vontade dos usuários e de quem acredita no projeto, que existe desde 1971 e foi fundado na Inglaterra. WWOOF é uma das primeiras organizações mundiais de voluntariado, ou o que eles gostam de chamar voluntarismo (voluntariado + turismo). Hoje em dia eles eles estão presentes em 132 países.

WorldWide Opportunities on Organic Farms (WWOOF) significa Oportunidades do Mundo Todo em Fazendas Orgânicas ou Oportunidades Mundiais em Fazendas Orgânicas, então talvez a gente devesse chamar de OMTFO ou OMFO, mas estamos chamando pelo nome original porque ninguém traduz nome de organizações e ninguém vai morrer de falar WWOOF!

Eles fazem parte de um movimento mundial que vincula os visitantes a produtores e agricultores orgânicos para promover experiências culturais e educacionais baseadas na confiança e no intercâmbio não monetário, ajudando assim a construir uma comunidade global sustentável. Combinava bem com o que eu procurava para minha experiência como mulher viajando sozinha como voluntária. Eu precisava de algo que inspirasse confiança, como uma organização mais antiga.

Como funciona o WWOOF? O que recebi como voluntária?

Todo anfitrião da WWOOF deve fornecer a oportunidade de trabalho em troca de hospedagem e comida, sem custo adicional para o viajante. Os acordos são feitos pelo site, portanto o anfitrião precisa informar tudo que oferece e tudo que espera do voluntário no perfil ANTES da experiência começar.

O voluntário tem obrigações que também devem ser colocadas no perfil do anfitrião. Além disso o perfil do voluntário deve ser bem claro, não pode ter perfil sem foto, nem com informações incompletas.

Os objetivos de quem faz WWOOF geralmente são:

  • ter uma experiência enriquecedora para dar novos ares à vida;
  • aprender um idioma na prática com nativos;
  • ter um intercâmbio cultural com os habitantes locais.
  • obter experiência em primeira mão de agricultura orgânica e jardinagem;
  • conhecer a realidade do campo e experimentar uma vida voltada para a natureza;
  • ajudar o movimento orgânico;
  • fazer trabalho braçal (mas sem exploração acima de suas capacidades físicas, vou falar disso mais a frente quando explicar o dia-a-dia)
  • aprender sobre como funciona uma fazenda orgânica, pois o sistema orgânico muitas vezes exige trabalho intensivo de manejo, pois as plantações não dependem de fertilizantes artificiais e pesticidas;
  • fazer contato com outras pessoas no movimento orgânico para futuras oportunidades de trabalho ou estudo na área.

A ideia fundadora do WWOOF é facilitar intercâmbios em torno da agricultura orgânica. O WWOOF espera fornecer um meio para as pessoas aprenderem sobre alimentos orgânicos, agricultura e modos de vida sustentáveis. Ao fazê-lo, reúne pessoas que compartilham valores e filosofias semelhantes. O WWOOF visa fornecer ajuda aos seus anfitriões e, ao mesmo tempo, permitir que os visitantes aprendam o que significa cultivar o próprio alimento de forma sustentável e ganhar a vida como agricultor orgânico, e a importância de apoiar a agricultura sustentável.

Eles são tão preocupados com a causa, que um grupo de Organizações Nacionais WWOOF criou a Federação de Organizações WWOOF (FoWO) em 2013, uma comunidade mundial que promove a conscientização sobre práticas agrícolas ecológicas, palestras e outros eventos.

Como era o anfitrião no intercâmbio voluntário na bélgica

Na experiência da Bélgica tive contato com o Vincent, um cara de 25 anos que administrava uma fazenda de cabras, pra vender leite e produzir queijo. Ele fazia Mestrado na Universidade de Wageningen, onde eu estudei na graduação. Achei fantástico como ele era, ao mesmo tempo, uma pessoa simples do campo e um acadêmico de primeira.

Descobri WWOOF por causa de um amigo francês e então perguntei ao Vincent se a sua fazenda também estava aberta a voluntários. Ele já tinha perfil no site, pois isso é bastante comum na Europa, principalmente entre pessoas da área de ciências ambientais.

Conheci a família dele, os pais e irmãos, junto com outros colegas da faculdade, inclusive outras mulheres viajando sozinhas como voluntárias. Cada aluno escolheu passar um determinado período na fazenda, alguns semanas, outros meses. A gente fazia de tudo, ajudando em atividades de educação ambiental, horta, cuidado com as cabras, preparo do queijo, e várias outras coisas! Tivemos um dia de aula de equitação e uma visita à cidade mais próxima da fazenda, que é Tournai, Bélgica.

Intercâmbio de trabalho na bélgica – o que eu fazia no dia-a-dia de trabalho?

Parece que vai ser uma exploração quando a gente fala que o voluntário vai fazer trabalho braçal, mas isso está longe de ser verdade. Além de ser proibido pelas regras do WWOOF. Você tem que combinar com o anfitrião de forma antecipada sobre o que ele precisa na fazenda, para saber se você está disposto a ajudar.

Além disso, um anfitrião jamais pode exigir que um voluntário faça uma tarefa com a qual ele não concorda. Mas isso raramente ocorre. Vou contar o meu caso para vocês conhecerem o dia-a-dia como voluntária:

  • Cuidar das camas (de palha) das cabrinhas bebês para que não passem muito frio (lembra que é Europa),
  • Dar leite para os animais de acordo com os critérios que o anfitrião pedia,
  • Cuidar dos horários de passeio das cabrinhas (que horas elas ficavam no estábulo e que horas saíam pro pasto),
  • Dar de comer pros animais,
  • Trocar a água dos animais,
  • Limpar os espaços no no estábulo de acordo com as normas de higiene,
  • Colocar as cabras nos locais de retirar leite, entre outras tasks do campo.
  • Atender clientes que queriam comprar queijo,
  • Engarrafar leite, preparar leite para fazer queijo,
  • Embalar queijo…
  • Comer muito queijo!

Deu pra pegar o espírito da coisa, né? Não fiz nenhum trabalho que não quis. Se eu achasse muito pesado carregar alguma coisa ou fazer qualquer coisa, eles passavam pra outros voluntário ou faziam eles mesmos.

Teve também um dia no período que fiquei lá onde recebemos crianças que eram do programa de educação ambiental da fazenda. Que inclusive, era apoiado e divulgado pela Universidade. Ajudei a interagir com aqueles que falavam inglês, ajudei nas atividades educativas pela fazenda e tive aulas de equitação.

Work exchange não é só work work work

O grande objetivo de fazer um intercâmbio de trabalho na bélgica não foi acordar as 4h da manhã num dia frio pra ajudar uma cabrinha, mas eu gostei mesmo assim.

O grande objetivo foi conhecer os belgas e praticar meu francês. Mesmo sem ter a obrigação direta de fazê-lo, os anfitriões levaram a gente pra passear na cidade próxima. E claro, nos fins de semana (ou outros dias tratados direto lá na hora), os voluntários iam viajar e conhecer o país e os arredores.

O importante é lembrar que esse tipo de voluntariado não é um trabalho formal. Isso pode ser bom e pode ser ruim!

Pode ser bom, porque o vínculo é mais leve e solto. Você pode combinar os dias livres de forma mais natural, direto com o anfitrião. Isso torna a relação mais pessoal e menos apegada a regras trabalhistas específicas do país.

Pode ser ruim, porque se o anfitrião for abusivo, é difícil ter a quem recorrer. Mas o WWOOF tem uma equipe legal que ajuda nessas horas, inclusive convesando com o anfitrião em seu nome e ajudando a lidar com algum possível mal-entendido.

WWOOF é seguro?

Sim, WWOOF é uma instituição de verdade, séria e que existe há mais de 40 anos!

O que eles costumam fazer para segurança é avaliar as reviews de viajantes sobre a plataforma. Eles também fazem checagens aleatórias nas fazendas, ou seja, eles visitam uma fazenda cadastrada sem avisar, para ver como as coisas estão indo.

Já li reclamações em fóruns de que eles demoram pra responder e isso pode ser um problema. Afinal se você está em apuros, precisa de uma resposta rápida. Por isso, resolvi enumerar algumas medidas de precaução para mulher viajando sozinha como voluntária.

Também li depoimentos e fóruns sobre casos de abuso no WWOOF, e em todos os casos o anfitrião foi imediatamente removido da plataforma quando estava errado. Eles são bem justos nisso e as histórias costumam ter final feliz.

Cada país tem seu próprio sistema de regras, que obedece um estatuto maior de como usar o WWOOF. Por exemplo, na Holanda eles têm uma política de “três advertências e está fora” em relação aos comentários negativos. Se uma fazenda ou WWOOFer receber três comentários negativos de casos separados,  o agricultor é removido da organização WWOOF Netherlands. Se eles receberem uma revisão negativa, eles farão o acompanhamento diretamente com ambas as partes e tentarão usar a revisão como uma maneira de melhorar a situação para futuros membros.

Política de tolerância zero para assédio no WWOOF

No site mundial da organização, a WWOOF declarada que se receberem uma única queixa referente a qualquer tipo de abuso verbal ou físico, agressão, assédio sexual ou outro tipo de discriminação ou qualquer outra forma de ameaça à saúde e segurança, eles reservam-se o direito de suspender imediatamente a assinatura do fazendeiro.

Checklist: Como prevenir problemas de segurança no WWOOF?

  • Leia atentamente todas as referências
  • Veja a distância da fazenda para a cidade mais próxima
  • Veja  e pergunte para o anfitrião quais são as opções de transporte público na região da fazenda. Investigue trem, ônibus, carroça, o que for.
  • Faça perguntas específicas e peça fotos da propriedade atualmente, pois pode acontecer de ter fotos antigas no site se o host for mal intencionado.
  • Peça detalhes sobre onde vai ficar, tem aquecedor? Tem chuveiro? Pode repetir o que eu tenho direito? Não ofende ninguém, apenas confirma a informação.
  • Se possível, tenha um plano B. Sempre que conseguir, encontre hostels e outras acomodações na região, pois caso não goste da experiência você tem direito de interromper de forma imediata, e ter pra onde ir nesse caso é melhor.
  • Informe alguém sobre a fazenda que está indo, enviando inclusive mapa, endereço, fotos e link do perfil no site.
  • Se sentir algo estranho, ou ver algo que não gosta, diga na hora e ouça sua intuição!
  • O WWOOF não é um contrato de trabalho, portanto se sentir desconforto você tem 100% de direito de ir pra casa a qualquer momento.

Se você seguir as dicas direitinho, pode crer que vai ter uma experiência tão 10 quanto a minha. Recomendo muito WWOOF para quem quer dar uma limpada na mente, curtir um pouco de natureza e interagir com bichinhos 🙂

Tem dúvidas? Deixe nos comentários!

 

Precisa de hospedagem barata em qualquer lugar do mundo?
Reserve por Aqui e ajude o blog sem pagar nada a mais por isso!
E que tal visitar museus pela Europa sem fila?
Reserve com o TicketBar Aqui e ajude o blog sem pagar nada a mais por isso!


Quer saber tudo e mais um pouco sobre veneza?
Compre o e-book! Aqui e ajude o blog sem pagar nada a mais por isso!


Engenheira, tradutora e criadora de conteúdo. Gosta de falar de viagem barata (mochilão), dicas de intercâmbio alternativo e é uma caçadora incessante bolsas de estudo. Em 28 anos de vida, fez 4 intercâmbios, conhece 20 países (por enquanto), e já morou em: Holanda, Alemanha e China.

5 thoughts on “Minha experiência WWOOF: trabalhando numa fazenda na Bélgica

  1. Oi Juliana!

    Vi sua palestra no SESC Campinas no sábado passado e adorei. Aí comecei a acompanhar o blog.

    Muito legal essa experiência com a WWOOF, eu nunca tinha ouvido falar desse site mas já fiquei com vontade de tentar.

  2. Oi Juliana!
    Adorei seu post.
    Estou buscando uma experiência semelhante porém na America do Sul (o que a grana me permite por agora haha).
    Gostaria de saber se existe uma taxa a ser paga só para se inscrever como voluntário.
    Muito obrigada!

    1. Oi, Obrigada pela visita 😉
      então, vc pode ver as vagas de graça, mas pra viajar mesmo tem que pagar a taxa de 20 libras (hoje em dia uns 100 reais).
      quando vc vai se inscrever como voluntária já aparece a opção de pagar :/ acredito q não tem escapatória do pagamento.
      abraços

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *