Porque é difícil voltar a viver no Brasil depois de morar no exterior

O Brasil com Z é um blog onde vários brasileiros se juntaram para escrever sobre suas experiências sobre morar no exterior. Uma das integrantes, a Glenda, mora em Sevilha, na Espanha. E fez um texto excelente sobre voltar ao Brasil depois de ter morado fora.

Depois de duas semanas lendo sobre o porquê dos meus companheiros de Brasil com Z não quererem mais voltar a viver no Brasil, decidi escrever meu texto. Em 2009 já havíamos feito uma ronda sobre “voltar ou não voltar” entre os colaboradores do blog… os tempos eram outros, o pessoal também, mas quem quiser conferir pode clicar aqui. Inclusive eu dei minha opinião sobre a volta e decidir escrever de novo não porque tenha mudado de ideia, mas sim porque ampliei um pouco meu pensamento“.

Não precisamos nem citar a quantidade de problemas, principalmente sociais e ambientais que existem no Brasil, primeiro, porque nem vale a pena repetir. O Brasil também não é um país que exemplo em segurança, na verdade algumas capitais estão entre as metrópoles mais perigosas do mundo. Temos o SUS como exemplo de saúde pública quando se trata de vacinação – o Brasil é um dos países que vacina mais rápido no mundo. Porém, o desvio de recursos e a falta de administração pública constante no Brasil leva o SUS a ser sucateado em diversos outros setores. As filas nos hospitais são presentes em todas as regiões do Brasil, embora o SUS preste um serviço excelente no combate à AIDS, tratamento de câncer e vigilância sanitária, porém precisa melhorar muito. No Brasil também falta tolerância perante as desigualdades sociais e consciência política.
Glenda continua: “Não sei quando volto ao Brasil pelo simples fato de que não sei se quero voltar ao Brasil. Gosto muito da vida que levo atualmente. A principal lição de vida que aprendi nestes 6 anos de Sevilha é que não é pobre o que menos tem, mas é rico o que menos necessita. Aqui aprendi que não preciso de luxos para viver feliz, que com pouco dinheiro no bolso posso me divertir, ter uma vida cultural relativamente agitada e ainda viajar de vez em quando. Aprendi que a felicidade não se encontra em shopping e que autoestima não está diretamente relacionada com chapinha e unhas bem feitas. E não que no Brasil eu tivesse um padrão de vida alto ou fosse uma patricinha de carteirinha, mas depois de viver 6 anos em uma casa com móveis alugados, nossa percepção de vida muda muito”.

Morando na Holanda aprendi que se trabalha para viver e não se vive para trabalhar. Gosto da ideia de uma sociedade que permite pessoas comuns, como eu e você, que tem um trabalho normal, conseguirem tirar férias na Grécia ou na Tailândia.

Horas extras, 60 horas de trabalho semanais, um final de semana em casa atolado de prazos esgotados? Óbvio que isso acontece, mas não é uma obrigatoriedade para se ter uma vida minimamente digna e confortável. “Conheço funcionários públicos que pedem redução de salário para poder ficar uma hora a mais com os filhos em casa”, disse a Glenda.

E o transporte: como era no exterior?

Vivendo na Holanda, assim como a Glenda na Espanha, eu aprendi que carro não deveria ser um item básico, mas um luxo. Carro é pra ser usado naquelas distâncias mesmo longas, tipo viagens de uma cidade pra outra.
Sabe porquê? Porque onde o transporte público existe, funciona e tem preço acessível em grande parte do país. Me assustei no começo com o preço dos ônibus na Holanda quando morava em Wageningen, mas eles vinham no horário certinho, tinha aquecimento e ar-condicionado dependendo da estação, era seguro (isso vem de todo um contexto social de igualdade que o Brasil não tem), porém não era 24 horas. Como qualquer serviço, é claro que tem defeitos, mas comparado com a qualidade de Piracicaba é absurdamente melhor.

No meu caso em particular, na Holanda, a bicicleta é uma alternativa de transporte realmente viável, não apenas um luxo de alguns grupos ousados de pessoas, como no Brasil. Ciclovias estão presentes na Holanda na totalidade do território, mas em outros países elas também facilitam a vida de estudantes, trabalhadores, mães… No Brasil a ciclovia tem menos destaque nas políticas públicas por diversos motivos, entre eles o modelo de desenvolvimento do transporte do país, que foi dominado pelo carro e caminhão, com pouco investimento em ferrovias ou outros meios de transporte locais. As hidrovias se destacam também em algumas regiões do nosso país.

Em Sevilla, nossa amiga Glenda pedalava 40 minutos até o trabalho, e olha que “Sevilla não é uma cidade pequena, tem quase 800 mil habitantes fora a zona metropolitana”. Na Holanda, eu pedalava 10 minutos na beira da rodovia, de casa até a faculdade em Wageningen. Ops, correção: Na ciclovia que beirava a rodovia! Com a liberdade de poder ouvir uma música no fone, porque afinal não tenho que me preocupar em ser atropelada. Realmente faz diferença poder ir e vir com o ventinho no rosto, se exercitar, e ainda economizar. O dinheiro que eu usaria de ônibus por mês pode ser guardado para uma viagem – ou simplesmente pra comer melhor.

Convivências no exterior

Em um ambiente internacional, cheio de outros imigrantes, aprende-se a tolerância, o que ajuda a esquecer um pouco a hierarquia social. Vivemos no mesmo prédio do entregador de pizza, da faxineira, e do seu chefe. Sim, seu chefe. Compramos no mesmo mercado, e comemos no mesmo restaurante.

Pelo menos na teoria isso funciona, mas a Europa tem defeitos, assim como no Brasil. A Alemanha tem sua história recente com o nazismo e ainda luta contra o neonazismo e neofascismo. Por toda a Europa, existem exemplos de intolerância e ideologias de ódio. Assim como no Brasil. Porém, em alguns países existem governos com políticas públicas de tolerância, onde as pessoas tem mais liberdade de lutar pelos seus direitos.

Glenda conta sobre a sua experiência na Espanha: “O normal pode ser qualquer coisa, que cada pessoa é um mundo e que cada um de nós cuida do seu próprio mundo pessoal, sem precisar de aparências ou máscaras. E ao mesmo tempo aprendi que todos devemos cuidar do nosso mundo coletivo, que a força do ser em conjunto é muito importante e que, melhor de tudo, dá resultados”.

“Então, depois de conviver com tantos outros valores e realidades, muitas vezes penso que não tenho vontade de voltar a morar no Brasil. Quem, depois de aprender a cruzar uma rua pela faixa de segurança sem nem precisar olhar para os lados ou se acostumar a voltar para casa a pé às 3 da manhã pensa um dia em regressar à sua pátria amada? Quem diante de tudo isso pode cogitar a hipótese de não viver mais essas coisas, aparentemente tão banais, mas que no Brasil parece que há muito tempo não existe?”

Qualidade de vida acessível a um bolso pouco cheio ou um bom trabalho (ou um trabalho qualquer)?

Meu consolo é que este mundo é enorme, como já dizia o poeta, «grande demais para nascer e morrer no mesmo lugar». Confesso que não sei se tenho o mesmo ânimo para recomeçar tudo de novo em um país novo, mas quem disse que se eu voltasse ao Brasil eu não teria que recomeçar do zero? E entre recomeçar com qualidade de vida e recomeçar rodeada de violência, desigualdades e injustiças, só fico na dúvida porque neste último caso também estaria rodeada de muito amor, amigos e família (únicos motivos reais que me fazem pensar em voltar a viver no Brasil)“.

Enfim, todo mundo deveria ter a oportunidade de sair da sua bolha, ver o mundo com outros olhos, aprender novos valores e, quem sabe, voltar e conseguir lutar por um lugar melhor. O Brasil é um país com duas caras, lindo e horrível ao mesmo tempo. Sei que sou uma privilegiada por ter oportunidade de estudar o que eu gosto. Adoraria poder voltar e tentar fazer do meu Brasil um lugar melhor para se viver, mas ao mesmo tempo me sinto muito ingênua em pensar que isso poderia ser possível. Ninguém tem a resposta e não sou a única em duvidar do “desenvolvimento” do Brasil“. -> Definitivamente ela não é a única.

Pelo que tenho reparado até hoje, quem tem a experiência de viver na Europa com emprego e estabilidade, só volta pro Brasil por família, amigos ou por não aguentar o frio hauhauheuhea
Embora muita gente siga pensando ao contrário, dinheiro não é e nem nunca foi garantia de felicidade. Felicidade para mim é isso, poder levar a vida sem pausa, mas sem pressa, sem paradeiro se eu assim quiser. Posso não estar com os bolsos cheios, mas percebi que não necessito nada disso para ter uma vida confortável, surpreendente e divertida“.

Fatores emocionais como amores e amigos também fazem parte da nossa tomada de decisão. Sua condição social também. Pra mim, vale a pena aproveitar a oportunidade de viver em um lugar que parece mais justo do que o lugar onde eu nasci.

E aí, qual a sua opinião?

virandogringa