Porque “não se preocupe com dinheiro, apenas viaje” não é tão simples assim

“Tenho uma conhecida na internet que acompanho nas redes sociais há mais ou menos dois anos. Ela é uma garota legal e inteligente que escreve em um blog e recentemente decidiu voltar para a Europa para fazer um mestrado em uma área que, por muitas razões, provavelmente não irá guiá-la a um grande emprego. E ela sabe disso, acredito, porque fala mais sobre isso como “uma oportunidade para aprender e expandir a mente” do que uma preparação para uma futura carreira. O que é bom, mas a verdade é que ela pode aproveitar esse tipo de liberdade — ser como uma andarilha que ama viajar, estudar pelo prazer de estudar — porque ela vem de uma família que tem dinheiro e, se não totalmente subsidiada, nunca teve que se preocupar com sua segurança no futuro. Ela ganhou uma espécie de loteria genética, e é inútil invejar a liberdade que o destino a concedeu.

Moço, ‘não tenho dinheiro nem pro Bilhete Único’ constitui uma desculpa?

Mas é útil — até mesmo importante — condenar sua atitude em relação a tudo isso, atitude que é bem prevalente entre os jovens que não precisam se preocupar com a fundação da sua futura segurança financeira: a ideia de que você deve viajar, como um imperativo moral, sem se preocupar com algo tão trivial como “dinheiro”. A garota em questão posta frases superficiais em suas exuberantes fotos sobre largar tudo e ir embora, ou pedir demissão daquele emprego que você odeia para começar uma vida nova em um lugar novo, ou absorver a beleza do mundo enquanto você é jovem e sem amarras o suficiente para fazê-lo. É pornô inspiracional, que serve ao duplo propósito de atrair o espectador com uma vida que ele não pode ter, enquanto o faz se sentir como um derrotado por não conseguir alcançar esse patamar.

É a forma como as classes mais altas fazem para se sentir melhor em fazer algo que, quase literalmente, todo mundo com dinheiro pode comprar. Viajar pelo simples viajar não é uma realização, e nem é garantia de fazer qualquer pessoa mais culta e única (alguns dos turistas mais horríveis e arrogantes são as mesmas pessoas que podem visitar três novos países a cada ano). Alguém que tem o privilégio extremo (sim, privilégio) de sair por aí e viajar enquanto jovem não é melhor, nem mais sábio, ou mais valoroso do que aquela pessoa que tem que ficar em casa, enquanto trabalha em vários empregos para ter a esperança de um dia conseguir o emprego que o cara viajante de carteirinha acredita ser algo ganhado naturalmente. É um jogo de dinheiro e acesso, e agir como se “se preocupar com dinheiro” em relação a quem tem menos fosse apenas uma escolha piora o insulto.

Além disso, entendo (talvez até melhor por ter viajado bastante) que a sua habilidade ou inabilidade de viajar não representa em nada você como pessoa. Alguns são simplesmente mais incumbidos de responsabilidades e compromissos, e tem menos renda, seja pela família ou não. E aquele que precisa ficar em um emprego que talvez não ame porque possui família para sustentar, ou faculdade para pagar, ou ainda não alcançou uma independente base financeira, também possui o mesmo desejo de aprender e crescer como pessoa como aquele que viaja. Ele simplesmente não tem as mesmas opções e está aprendendo e crescendo a sua própria maneira, dentro do contexto de vida que possui. Ele está aprendendo o que significa trabalhar duro, adiar gratificações, e melhorar a si mesmo de maneira modesta e lenta. Isso pode não ser um mochilão pela Europa, mas não há como discordar que construa caráter.

Encorajar essa pessoa a “não se preocupar com dinheiro” ou a “largar tudo e seguir seus sonhos” demonstra apenas um profundo desentendimento sobre o que “se preocupar” realmente significa. O que o viajante good vibes quer dizer quando disser “não se preocupe” é “não faça disso sua prioridade, ou não dê tanto valor para isso na sua vida”, porque de alguma forma ele imagina que você está escolhendo ganhar um dinheiro extra ao invés de ter uma grande experiência. Mas o “se preocupar” que realmente está ocorrendo na sua vida é o conhecimento de que você não tem escolha a não ser fazer do dinheiro sua prioridade, pois se você não o ganhar — ou decidir gastar um montão de grana em uma viagem para o sul da Ásia em uma busca por autoconhecimento — você poderá facilmente acabar na sarjeta. Implicar que isso é uma questão de escolha é ingênuo e absurdo.

Todos nós precisamos forjar nosso caminho para independência financeira e liberdade. E talvez você seja sortudo o suficiente para que seu caminho envolva muitos passeios por aí, tudo ao seu tempo, e um monte de experiências novas — pois você sabe que a segurança estará esperando por você no fim do arco-íris. Isso não é ruim por si só, e não há motivos para se sentir culpado ou envergonhado por causa do seu privilégio.

Mas encorajar as pessoas a seguir o mesmo caminho raro que o seu, como se fosse a única maneira de elevar o espírito ou buscar um significado para a vida, te faz um babaca. Jamais me sentiria bem sendo essa pessoa. A pessoa que posta frases de inspiração que apenas se aplicam a uma pequena porcentagem da população que já tem todas as necessidades básicas atendidas. E ai se alguém reclamar e apontar seu privilégio. Ai se mostrar que para fazer uma viagem é preciso guardar dinheiro todos os meses, às vezes gerar dinheiro com um segundo emprego, vendendo brigadeiro, fazendo bico, fazendo freelas, deixando de beber (faz uma diferença enorme pra alguns). Mesmo assim pode ser que a pessoa viaje e na volta não seja como aquela blogueirinha, passeando pela Europa e tentando graduações por pura diversão. Às vezes você viaja na base do cartão de crédito e, quando a viagem acabar, pode estar em situação financeira muito pior do que antes. E nenhum auto-conhecimento fará essa realidade doer menos.

Esse é um texto traduzido do Financial Diet. Para ler o original clique aqui.

Ok, então COMO viajar com pouco dinheiro?

Existem muitas maneiras de viajar sem dinheiro, principalmente agora na pandemia que nos faz priorizar viagens pelo Brasil. Seja pelo fato de muitos países terem fechado as portas pra nós, seja pelo simples medo de se infectar.

Sempre separo uma viagem em várias partes:

  1. hospedagem: Para hospedagem super barata eu uso Hostelworld, Worldpackers, AirBNB e Couchsurfing.
  2. alimentação: Para alimentação super barata eu pego uma hospedagem que tenha cozinha, seja um hostel, um airbnb, a casa de um amigo, o couchsurfing. Então vou ao supermercado e compro comidas fáceis e baratas, como macarrão, vegetais, arroz, bolachas, pães. Quando estou em viagem evito comer coisas que precisam de geladeira ou tenham preparo complicado tipo feijão, carne, assados, etc.
  3. transporte: Para viajar de ônibus dentro do Brasil por preços muito baixos temos o Buser e o WeMobi.
    Para viajar de carona dentro do Brasil e também em outros países tem o BlaBlacar.
  4. passeios: Em capitais e cidades bem turísticas você encontra mapas gratuitos da cidade ou Free Walking Tours que geralmente você paga o quanto achar justo. Busco também sempre as atrações gratuitas como museus, praças, parques, monumentos, praia, montanha natureza.

Se você planejar bem e usar os meios de viajar sem dinheiro que compartilho sempre aqui e no instagram, com certeza você vai conseguir realizar uma viagem um dia. Pode ser que demore, pode ser que pareça impossível, mas planejando é possível sim.

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